A Noruega, que recentemente vibrou com o talento de estrelas como Erling Haaland e Martin Odegaard levando a seleção aos quartos de final do Mundial, agora se prepara para ver a euforia do futebol transbordar para a Liga dos Campeões. O Viking Stavanger, após conquistar seu primeiro título nacional em 34 anos no final de novembro do ano passado, está prestes a fazer sua estreia na mais prestigiada competição europeia de clubes, um feito notável para uma nação sem grande tradição na elite continental.
A jornada do Viking até a Champions League foi repleta de reviravoltas. Pouco fazia prever que o clube chegaria a este patamar, especialmente depois de ter ficado a perder por 0-2 logo no início do play-off frente ao Dinamo Zagreb. Contudo, a resiliência e o notável progresso sob a liderança de Erik Nevland, diretor desportivo desde 2021, permitiram ao Viking reverter o placar para um impressionante 5-3 no agregado, eliminando os croatas e garantindo sua vaga. Em entrevista exclusiva ao Flashscore, Nevland, ex-internacional norueguês, detalha a experiência de um pequeno clube enfrentando gigantes e a filosofia inegociável que o Viking pretende manter.
O Caminho Inesperado até a Elite Europeia
A qualificação para a Liga dos Campeões foi, de fato, uma surpresa, mesmo para o próprio Nevland. “Entramos em todos os jogos com a convicção de que podemos vencer. Mas tenho de admitir que, quando estávamos a perder por 0-2 aos 10 minutos, pensei: ‘ok, vamos ter de nos contentar com a Liga Europa'”, revela o diretor. Ele enfatiza que competir na Liga dos Campeões é algo novo para o Viking, que precisa encontrar seu caminho gradualmente. No início em Zagreb, “parecíamos claramente inferiores”, mas a capacidade de empatar sob pressão deu ao time a confiança de que era possível. A virada em casa, onde “sabemos que podemos vencer qualquer adversário”, solidificou o feito histórico.
Enfrentando os Gigantes e a Gestão da Expectativa
O primeiro desafio do Viking será contra o Estugarda, e Nevland descreve a sensação como “saltar de um penhasco e esperar aterrar em segurança”, dada a inexperiência do clube em fases de grupo de competições europeias. “Nem sequer nos testámos na fase de grupos da Liga Conferência e ou da Liga Europa. Portanto, vai haver muita incerteza”, explica. A mensagem para os jogadores é clara: “desfrutem e vejam até onde nos pode levar”. A expectativa para o jogo em casa contra o Bayern Munique, na próxima jornada, é imensa, sendo considerado um “evento incrível para a cidade e para o clube”. Nevland é realista sobre a dificuldade, “Eles não são propriamente fracos”, diz a rir, mas vê boas chances de vitória contra equipes como PSV Eindhoven, Feyenoord e Sabah, mostrando um otimismo estratégico e a crença na capacidade do seu elenco.
Investimento Inteligente e a Identidade do Clube
A qualificação para a Liga dos Campeões abre novas portas para o Viking, atraindo jogadores que antes estavam fora de alcance, mas também impõe desafios. “Este é um período crucial para o clube, pois estamos a traçar o caminho para muitos anos e temos de ser inteligentes. Não podemos ser ingénuos e fazer compras por impulso só porque agora estamos a competir na Liga dos Campeões”, adverte Nevland. Ele revela que o clube já investiu significativamente no plantel, contratando Erik Botheim (3 milhões de euros do Malmo), Henrik Bjordal (2 milhões de euros do Valerenga) e Essien Bassey (1 milhão de euros do PSV Eindhoven) antes do fecho do mercado, em valores que nunca tinham sido pagos antes. Contudo, a filosofia é clara: “Não queremos mudar demasiado o clube só porque estamos a jogar na Liga dos Campeões”. O dinheiro da Champions pode ser direcionado para departamentos médicos, ciência desportiva ou infraestrutura, mas sem alterar a essência do Viking, que busca construir uma base sólida para o futuro.
O Modelo Norueguês e o Futuro Sustentável
Uma particularidade do futebol norueguês é o sistema de propriedade, onde os clubes pertencem 100% aos seus sócios, impedindo a entrada de grandes investidores externos. Nevland vê isso como uma força. “O futebol é como a vida: nunca se deve gastar dinheiro que não se tem”, argumenta. Ele acredita que um clube enraizado na comunidade, com todos tendo voz, é mais importante do que depender de um grande investidor. Há também a limitação de apenas nove estrangeiros no plantel. A aposta na academia e no desenvolvimento de talentos locais é fundamental, “penso que a nossa academia será ainda mais importante do que já é”, como exemplificado por Haaland e Odegaard, que saíram de pequenos clubes noruegueses para se tornarem estrelas mundiais. O Bodo/Glimt é citado como um grande motor e inspiração para o futebol norueguês, “mostrando-nos o que é possível”, e agora o Viking espera criar sonhos semelhantes para os jovens de Stavanger. “Criar grandes ocasiões com os adeptos e com as pessoas da cidade é o mais importante”, conclui Nevland, sublinhando a importância da conexão local e da sustentabilidade, frutos de um desenvolvimento iniciado há 15 anos.





