Do sucesso em campo à luta contra o vício
Michel Henrique, atacante que brilhou no futebol gaúcho e foi artilheiro do campeonato estadual em 2018, revelou em entrevista ao portal UOL sua batalha contra a ludopatia, o vício em jogos de azar. O jogador conta que iniciou com apostas esportivas em 2017, mas com a regulamentação que vetou a participação de atletas profissionais em 2018, migrou para os cassinos online, onde a situação se agravou.
“A partir de 2022 e 2023, eu já estava bem descontrolado, mentalmente falando. Estava totalmente viciado”, confessou Michel, que hoje atua no Bagé, clube da Série A2 gaúcha. Ele buscou ajuda e informações para sair da condição, compreendendo o mecanismo que o prendeu.
O design viciante das plataformas online
O atacante de 37 anos criticou o design das plataformas de jogos online, que, segundo ele, são projetadas para viciar. “As plataformas online têm diversos jogos. Tem jogo para tudo que é gosto, tem jogo para tudo que é luzinha que atrai. E isso prende a pessoa. Já é projetado para viciar a pessoa. Ele vai dando pequenas porções, liberando a dopamina barata. O cérebro vicia, até que chega um ponto em que não tem mais controle”, explicou.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a ludopatia como um transtorno, com estimativas apontando 1,2% da população mundial afetada em 2024. Michel publicou um vídeo admitindo sua luta, na tentativa de conscientizar sobre a doença.
Críticas aos patrocínios de casas de apostas no esporte
Com a regulamentação das plataformas de apostas online no Brasil, o futebol se tornou um grande mercado para patrocínios. Campeonatos como o Brasileirão e a Copa do Brasil, além de clubes tradicionais, estampam as marcas de casas de apostas em seus uniformes e em suas propriedades. Michel criticou essa realidade: “Gera um bom valor para os clubes, gera um bom valor para a imprensa, mas gera um bom valor em cima do sofrimento de outras pessoas”.
O jogador lamentou a situação de adolescentes e jovens atletas que já se encontram viciados. “Tu vês hoje adolescentes, meninos de base com 17, 18, 19 anos, já tão viciados. E o que vai ser desses adolescentes quando tiverem 30 anos, se não pararem, se não fizerem um tratamento específico?”, questionou.
A jornada de recuperação e a busca por dignidade
Michel buscou ajuda de forma autônoma, lendo artigos e assistindo a vídeos sobre o tema. Ele relatou a vergonha e o isolamento que o vício trouxe, afetando sua dignidade, credibilidade e relacionamentos familiares. “Financeiramente, eu vou recuperar tudo. Eu tenho ciência, mas as coisas que eu perdi foram muito piores. É questão de dignidade, caráter, poder de fala, credibilidade. Perdi pessoas, perdi familiares. A conquista da confiança é muito mais difícil do que tu reconquistares a área financeira”, refletiu.
Com quase dois meses sem recaídas, Michel pretende manter sua voz ativa sobre a ludopatia, encorajando outros a pedirem ajuda. “Enquanto há vida, há esperança. Não é da noite para o dia que tu vais mudar, que tu vais resolver tudo, mas eu estou fazendo para que, daqui a um tempo, eu possa estar estabilizado de novo. Peça ajuda. Se tu estás numa situação de desespero, tem pai, mãe, amigo, tio, tia… Peça ajuda, grita por socorro”, concluiu.
Cenário de patrocínios e possíveis restrições
Em 2025, a maioria dos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro possuía contratos de patrocínio com casas de apostas. No entanto, projetos de lei em discussão no Congresso Nacional propõem a proibição de publicidade e promoções de jogos de azar online, incluindo patrocínios a eventos e clubes esportivos. Medidas semelhantes já foram adotadas em outros países europeus, como Inglaterra, Espanha, Itália e Holanda. O governador de Minas Gerais também anunciou a proibição de publicidade de casas de apostas em bens e vias públicas estaduais.





