Em uma entrevista exclusiva concedida ao Flashscore em parceria com Cesar Luis Merlo, Emmanuel Gigliotti, atacante com passagens marcantes por Boca Juniors, Independiente e Nacional de Montevidéu, entre outros, revisitou momentos cruciais de sua carreira. O jogador abordou desde a infância sonhando com o futebol até as consequências de um pênalti perdido em um Superclássico, a recusa a um convite do River Plate e suas experiências no futebol mexicano e chinês.
A Trajetória de um Sonho e o Preço da Fama
Gigliotti confessou que, na infância, o sonho de ser futebolista parecia irrealista, especialmente ao ver colegas em Madrid com outras profissões. Contudo, o incentivo do pai e o trabalho árduo foram fundamentais. A virada veio ao assinar sua primeira representação, quando percebeu que poderia viver do esporte. “Até aí, o futebol era mais um passatempo”, recorda.
Apesar de uma carreira “incrível”, Gigliotti aconselharia seu eu mais jovem a focar mais nos detalhes, como cobranças de faltas, e aproveitar a vasta informação disponível hoje para os atletas. Ele destacou o quanto o futebol mudou, com jovens treinando como profissionais desde cedo. Entre os momentos mais felizes, ele cita sua passagem pelo Boca, o San Lorenzo (apesar das dificuldades) e o Independiente, apreciando cada vez mais a experiência à medida que envelhecia.
O Peso da Camisa do Boca e o Pênalti Marcante
O momento mais difícil da carreira de Gigliotti, segundo ele, foi a saída do Boca Juniors, após ser “culpado” pela eliminação contra o River Plate na Copa Sul-Americana de 2014, ao chutar um pênalti na trave. “Toda a culpa caiu sobre mim. Era mais fácil culpar alguém pela derrota do que admitir que a equipe não esteve à altura”, desabafou. Ele refuta a responsabilidade individual, citando Maradona: “Fizeram parecer que se perde um jogo por uma única ação. E isso não é verdade. O futebol é muito mais do que isso.”
A situação gerou centenas de mensagens de ódio, e seu número de telefone foi vazado por um jornalista, forçando-o a trocá-lo. “No início, claro, incomodou-me. Mas com o tempo, aprendi a conviver com isso”, afirmou. Ele lamenta que muitos jogadores sejam “recordados mais por duas semanas ruins do que por uma carreira cheia de gols”. Curiosamente, Gigliotti nunca foi abordado diretamente na rua de forma agressiva por conta do ocorrido.
A Recusa ao River Plate: Uma Decisão Profissional
Um dos pontos altos da entrevista foi a confirmação de que o River Plate tentou contratá-lo. “Sim, é verdade. Tive a oportunidade de ir para o River”, revelou. No entanto, a recusa veio em um momento específico: o River havia acabado de ser rebaixado para a segunda divisão. “Era um projeto incerto. Se o River estivesse na primeira divisão, talvez tivesse pensado de outra forma”, explicou. A decisão foi puramente esportiva e contextual, e não influenciada por seu passado como torcedor do Boca. “Quando jogas futebol, és 100% profissional. Não há sentimentos de adepto a travar-te”, enfatizou.
Experiências Internacionais e o Contraste dos Mundos
Gigliotti compartilhou detalhes fascinantes de sua passagem pela China, onde se sentiu anônimo após a intensa visibilidade no Boca. Ele descreveu a China como “mil anos à frente em tecnologia” e mencionou costumes peculiares, como bebês usando calças abertas. A culinária exótica também foi um destaque, com ele provando tartaruga, cobra e aranha. “A tartaruga sabia a carne normal, mas a pele era horrível”, brincou.
Ao comparar o futebol mexicano com o argentino, Gigliotti descreveu o primeiro como “mais entretenimento”, focado em jogar, enquanto o argentino é “mais uma batalha, uma luta”. Ele aponta que os torcedores argentinos são “mais apaixonados e duros”, vivendo o futebol de forma mais intensa e implacável do que os mexicanos. Sobre o VAR, ele é categórico: “Não, foram as pessoas que o usam.” Gigliotti também confirmou que a camisa do Boca “pesa” e que a Bombonera “vibra”.
Ao ser questionado sobre o conselho para um jovem, Gigliotti resumiu: “Trabalha muito, foca-te nos detalhes, aproveita toda a informação disponível hoje. E não desistas, porque o caminho é muito duro.” Ele deseja ser lembrado como alguém que “trabalhou muito para chegar onde chegou, que desfrutou de todos os clubes por onde passou e que deu sempre tudo pela camisola que vestiu”.





