Até poucos anos atrás, a maternidade era um dilema quase insolúvel para atletas de alto rendimento. A escolha entre uma carreira profissional e o desejo de ter filhos muitas vezes significava o fim da trajetória esportiva. Embora figuras como Isabel Salgado, que jogou vôlei até o sexto mês de gestação nos anos 80, tenham sido pioneiras, suas decisões eram exceções em um ambiente que pouco apoiava mulheres mães. Hoje, contudo, um movimento transformador ganha força, com ligas e confederações repensando suas políticas e oferecendo suporte concreto para que atletas possam ser mães sem abandonar suas paixões.
O Apoio Crescente das Confederações
A mudança de posicionamento das entidades esportivas é um marco importante. No final de 2025, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou uma medida inovadora para o futebol feminino: o custeio de viagens para filhos de atletas em fase de amamentação. A atacante Ketlen Wiggers, artilheira do Santos e mãe de Lucca, nascido em novembro de 2025, é uma das beneficiadas. Quatro outras jogadoras já usaram o recurso: Florencia Soledad Jaimes (Internacional), Angela Soares Neves (Remo), Miriam Farias da Silva (Itapuense) e Rosileide Gomes da Cunha (Ypiranga).
No surfe, a World Surf League (WSL) também inovou. Em março de 2026, foi lançado o “convite de maternidade”, que permite que atletas retornem diretamente ao Championship Tour (CT) sem precisar passar pelas divisões de acesso (Challenger Series). A medalhista olímpica Tati Weston-Weeb, que deu à luz Bia Rose em fevereiro de 2026 e competiu grávida em 2025, planeja seu retorno em 2027 e se beneficiará do Season Wildcard, equivalente ao convite de maternidade. O benefício, contudo, é limitado a uma atleta por temporada, sendo concedido à francesa Johanne Defay neste ano.
O vôlei, com sua rica história de mães atletas, também se moderniza. A Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) implementou, desde 2023, o “Fundo Especial de Apoio ao Atleta”, que oferece suporte financeiro em casos de doença grave, gravidez, entre outros. Quatro atletas já usufruíram do fundo devido à gravidez. No vôlei de praia, desde 2021, as atletas que se ausentam por gravidez têm seus pontos no ranking congelados por até 24 meses, garantindo o retorno sem perda esportiva.
O tênis, por sua vez, deu um passo significativo em março de 2025, quando a WTA anunciou um plano inédito de benefícios. Em parceria com o Fundo de Investimento Público Saudita, a entidade oferece até 12 meses de licença-maternidade remunerada, além de bolsa para tratamento de fertilidade e outros suportes, embora com critérios de elegibilidade para as mais de 320 jogadoras.
Mães em Campo, Quadra e Mar: Histórias de Superação
As histórias de atletas que desafiam as expectativas e conciliam a maternidade com o alto rendimento são cada vez mais inspiradoras. Ketlen Wiggers, por exemplo, manteve os treinos durante a gestação e retornou às atividades apenas quatro meses após o parto. No surfe, Tati Weston-Weeb demonstrou sua força ao disputar uma etapa do circuito mundial em junho de 2025, estando com 17 semanas de gravidez.
O vôlei é um celeiro de exemplos. Além de Isabel Salgado, Pri Heldes jogou uma partida da Superliga grávida de cinco meses em 2025. A bicampeã olímpica Paula Pequeno seguiu em quadra até o quinto mês, e Karine Guerra atuou grávida por duas equipes, em uma delas até o sétimo mês. Tandara Caixeta foi além, sendo a primeira atleta a buscar na Justiça brasileira direitos trabalhistas ligados à maternidade, vencendo uma ação contra o Praia Clube que havia reduzido seu salário para 0,5% após sua gravidez.
O Desafio Persiste: O Caso do Judô
Apesar dos avanços, o caminho para a plena igualdade ainda tem obstáculos. O caso da campeã olímpica Sarah Menezes no judô, em 2026, gerou debate. Treinadora da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), Sarah foi demitida em fevereiro de 2026, menos de um ano após o nascimento de sua segunda filha, em maio de 2025. Em uma publicação no Dia Internacional da Mulher, ela questionou: “Por que uma mulher precisa escolher? Atleta, campeã e mãe. Tudo ao mesmo tempo!”.
A CBJ, em nota, esclareceu que a decisão se deu por uma reestruturação na comissão técnica, meses após o retorno de Sarah da licença-maternidade. A confederação admitiu não possuir um apoio específico à maternidade e que, no judô, as atletas geralmente optam por ter filhos após encerrarem a carreira. Este episódio serve como um lembrete de que, enquanto algumas modalidades avançam, outras ainda precisam desenvolver políticas de suporte mais robustas para garantir que a maternidade não seja um fator de exclusão no esporte de alto rendimento.





