António Simões, ícone do futebol português e lenda do Benfica, aos 82 anos, não hesita em apontar a final da Taça dos Campeões Europeus de 1961/62 como o ponto mais alto da sua notável carreira. Embora o terceiro lugar no Mundial de 1966 com a seleção portuguesa tenha sido um êxito estrondoso e surpreendente, Simões vê a conquista europeia com as águias como a confirmação de uma geração benfiquista que já fazia história. “Não éramos uns desconhecidos”, recordou o antigo avançado em entrevista à agência Lusa, ele que vestiu a camisola encarnada entre 1961 e 1975.
A Grande Final de Amesterdão: Benfica Revalida Título
Em maio de 1962, no Olímpico de Amesterdão, nos Países Baixos, o Benfica enfrentou o temido Real Madrid, que já ostentava cinco Taças dos Campeões Europeus. Numa partida memorável, as águias venceram por 5-3, revalidando o troféu conquistado na época anterior contra o FC Barcelona. A vitória encarnada foi construída com golos de José Águas, Domiciano Cavém, Mário Coluna e um bis de Eusébio, incluindo um de penálti. Pelo lado madrileno, o húngaro Ferenc Puskás brilhou com um hat-trick, numa equipa que contava ainda com lendas como Alfredo Di Stéfano e Paco Gento, e que vencia por 3-2 ao intervalo.
O Jovem Simões Diante dos Gigantes: Intimidação e Motivação
Aos 18 anos e 139 dias, António Simões tornou-se o jogador mais jovem a atuar e a vencer uma final da principal competição europeia. A memória desse momento é vívida para o ex-capitão: “Imagine o que é ter 18 anos, olhar para o lado e ver Di Stéfano, Puskás e Gento, que já tinham vencido várias Taças dos Campeões. Interroguei-me sobre o que estava ali a fazer, mas, depois, percebi que tinha muito para fazer e fiz.” Simões sublinha a importância de não se intimidar, mas sim de se motivar perante a grandeza dos adversários. “Essa é a primeira grande motivação que devemos ter para imitar alguém que é grande”, refletiu.
A Reviravolta de Béla Guttmann e o Legado Encarnado
Apesar de estar em desvantagem ao intervalo, o Benfica encontrou a força para virar o jogo. António Simões atribui grande parte dessa reviravolta à palestra de Béla Guttmann, então treinador do Benfica. “Foi um discurso de grande motivação. Ele dizia que o Real Madrid estava velho e cansado e que nós éramos jovens e tínhamos mais energia e raça”, partilhou Simões. A intervenção de Guttmann foi um “momento emocional” que levou à exaltação final de vencer a equipa mais forte da Europa. Os dois clubes voltaram a encontrar-se na mesma década, na Taça dos Campeões de 1964/65, com os encarnados a imporem-se nos quartos de final com um agregado de 6-3 (5-1 em Lisboa e 1-2 em Madrid), com Simões a marcar na primeira mão. “Não conheço outra equipa que tenha feito 10 golos ao Real em dois jogos. Naquele tempo, o Benfica pôs Portugal no mapa. Não descobrimos o mundo, mas demos a conhecer quem éramos”, defendeu. Simões fez questão de realçar a “ajuda preciosa” dos atletas oriundos das antigas colónias portuguesas no sucesso de um “país tão pequeno, mas com tanto talento”.
Inspiração para as Novas Gerações: Confiança e Qualidade
Atualmente, Benfica e Real Madrid preparam-se para um play-off de acesso aos oitavos da Liga dos Campeões, com os jovens benfiquistas a “procura de história”. Antónios Simões, que foi totalista nos três confrontos da década de 1960 contra o Real, deixa uma mensagem de incentivo: “José Mourinho é excelente na motivação. Os atletas têm de ouvir o treinador e acreditar no que é possível fazer. Isto atrai confiança para poder jogar bem. Não é possível jogar mal e ganhar a um adversário desta qualidade. Pede-se que todos tenham qualidade, trabalhem e não tenham receio.”