Investigação aponta para parceria de negócios entre diretora licenciada e intermediária há pelo menos dois anos.
A gestão do São Paulo Futebol Clube está abalada por um esquema que envolve supostos desvios de verbas e venda de provas, cujas investigações apontam para uma parceria entre Mara Casares, ex-mulher do ex-presidente J.P. Casares e atualmente licenciada da diretoria feminina e cultural do clube, e Rita de Cássia Adriana Prado, que atuava como intermediária em negócios.
A colaboração entre as duas teria se iniciado em 2023, focando na venda de espaços e ingressos para jogos e shows no MorumBis, além de outros eventos do clube. A situação veio à tona em dezembro do ano passado, após a judicialização do caso, e nesta quarta-feira (21), a Polícia Civil deflagrou uma operação com mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Mara, Adriana e também a Douglas Schwartzmann, diretor-adjunto das categorias de base do Tricolor, que também seria beneficiário no esquema.
Dinheiro em espécie e documentos apreendidos indicam a importância da investigação.
Durante a operação, os policiais apreenderam R$ 28 mil em espécie em um dos endereços de Mara Casares, além de documentos que detalham o suposto esquema. O material apreendido foi considerado de extrema importância para o andamento das investigações, segundo apurou a reportagem.
A linha do tempo levantada pela Polícia e pelo Ministério Público indica que a parceria entre Adriana e Mara não se limitava a eventos pontuais, como o camarote 3A no show da Shakira, mas se estendia desde 2023. Fontes ouvidas pela reportagem do Estadão indicam que a presença de Adriana como intermediária pode ter começado ainda antes, em 2022.
Adriana teria oferecido provas contra a gestão em troca de dinheiro.
Rita de Cássia Adriana Prado, segundo as investigações, teria reunido provas, como trocas de mensagens e e-mails com diretores, com o objetivo de vendê-las a opositores de J.P. Casares. Um ex-conselheiro, Denis Ormrod, afirma ter pago R$ 200 mil pelo material, mas alega não ter recebido o prometido. O valor, pago em cheque, não chegou a ser descontado.
Ormrod relatou que o pacote de materiais, com indícios de negociações que prejudicavam o São Paulo, foi oferecido por Adriana e seu marido a outras pessoas. Ele justifica sua participação dizendo que o dinheiro era seu e que faria o que quisesse, mas nega qualquer ato ilícito.
Gravações revelam esquema no camarote e negociações com a Osten Group.
Um dos negócios entre Adriana e Mara veio à tona através de um áudio vazado, que motivou uma nova frente de investigação. A gravação revelou um esquema de uso irregular da Sala Presidencial (camarote 3A) do MorumBis. Na conversa, Mara e Douglas Schwartzmann tentavam convencer Adriana a retirar uma ação judicial que citava o esquema, visando evitar a exposição pública.
O mesmo áudio também expôs outra negociação envolvendo o clube e a Osten Group, uma concessionária que cedeu carros em troca de publicidade. Na gravação, Adriana questiona por que ela não recebeu um veículo, enquanto outros teriam sido beneficiados, mesmo tendo atuado como intermediária.
Aliados de Mara e Douglas deixam diretoria; Casares renuncia.
Em meio às investigações, Antonio Donizeti Gonçalves, o Dedé, anunciou sua saída da diretoria social do São Paulo. Ele faz parte do Movimento Sempre Tricolor (MSP), o mesmo grupo de Mara e Schwartzmann. A saída de Dedé ocorreu após conversa com o novo presidente do clube, Harry Massis Júnior, que assumiu o cargo após a renúncia de J.P. Casares e permanecerá até o fim do ano. Mário Carlomagno, superintendente-geral, também deixará sua função.
A Polícia estima que a participação de Adriana no São Paulo remonta ao início do segundo mandato de J.P. Casares. Uma sindicância externa encomendada pelo clube sugere a revisão de contratos firmados pelos diretores licenciados.
Novos áudios e cartas indicam pressão e negociações obscuras.
Na véspera da votação de impeachment no Conselho Deliberativo, um novo áudio vazado trouxe à tona a discussão entre o marido de Adriana, Tom, e Denis Ormrod sobre a possibilidade de forjar o furto do celular que continha a gravação comprometedora. Tom alegou ter sofrido pressão para vender o áudio, com ofertas de dinheiro em troca das provas.
Adriana, em uma carta a Mara, também relatou ter sido pressionada a vender o material, mencionando Vinicius Pinotti, um possível candidato de oposição. Ormrod, por sua vez, nega ter participado da negociação.
Defesas negam irregularidades e questionam medidas policiais.
As defesas de Mara Casares, Rita de Cássia Adriana Prado e Douglas Schwartzmann emitiram notas à imprensa. Todos afirmam surpresa com as medidas de busca e apreensão, declaram colaboração com as investigações e negam a prática de atos ilícitos. As defesas também questionam a necessidade e o timing das ações policiais, alegando que seus clientes sempre se colocaram à disposição das autoridades e que as medidas parecem ter o objetivo de exposição midiática.





