Perito Tenta Investigar Dívida da Arena Há Anos
O perito Anísio Costa Castelo Branco, que recentemente ganhou notoriedade ao alegar que o Corinthians pode ter sido lesado pela Caixa Econômica Federal em relação ao financiamento da Neo Química Arena, busca há anos acesso a documentos para investigar o endividamento do clube. Em e-mails enviados a ex-presidentes do Corinthians, como Andrés Sanchez e Alexandre Husni, desde 2018, Anísio alertava sobre supostas práticas lesivas da Caixa e manifestava o desejo de formar uma comissão de peritos para analisar a dívida. Sem acesso a todos os documentos desejados, o perito baseou seus cálculos em informações disponíveis em processos judiciais entre o Corinthians, a Caixa e a torcida organizada Gaviões da Fiel.
MP-SP Reconhece Gravidade, Mas Perícia Apresenta Divergências
Em agosto deste ano, Anísio enviou uma representação ao Ministério Público de São Paulo (MP-SP) com o objetivo de esclarecer a formação e evolução da dívida da Arena. O promotor Cassio Roberto Conserino, apesar de admitir falta de conhecimento técnico, considerou as informações graves e, caso confirmadas, poderiam indicar gestão temerária por parte da diretoria do Corinthians. Dois dias depois, Anísio apresentou um laudo técnico de 62 páginas, onde estima uma diferença de R$ 256 milhões entre o saldo devedor cobrado pela Caixa e o valor que, segundo seus cálculos, o Corinthians deveria. No entanto, uma análise detalhada dos documentos revelou inconsistências significativas no laudo do perito.
Falhas na Tese do Perito: Cálculos e Pagamentos Questionados
A análise comparativa entre o laudo de Anísio e os documentos oficiais, como planilhas anexadas aos processos judiciais, expôs quatro falhas graves: duplicidade em registros de pagamentos, inclusão de pagamentos em períodos de carência e standstill (quando o Corinthians estava autorizado a não pagar), contradição com o próprio reconhecimento do Corinthians sobre os valores pagos e a consideração de pagamentos em prestações que, na verdade, eram inadimplentes e motivaram ações judiciais. O laudo do perito superestima em R$ 148 milhões o valor pago pelo Corinthians, em desacordo com os extratos bancários e a própria Arena Itaquera S/A. Além disso, houve uma alteração significativa no cálculo da correção da dívida em apenas dois dias, elevando a percepção do valor em R$ 61 milhões devido ao esquecimento de parte da taxa de juros.
Entenda a Evolução da Dívida da Neo Química Arena
A dívida atual referente ao financiamento da Neo Química Arena gira em torno de R$ 640 milhões, valor acordado entre Corinthians e Caixa. A Caixa, amparada pela Lei Complementar nº 105/2001, não pode divulgar publicamente os valores detalhados devido a sigilo bancário. A análise dos autos judiciais revela a evolução da dívida desde novembro de 2013. O financiamento inicial de R$ 400 milhões sofreu acréscimos devido a juros incorridos durante períodos de carência e standstill. Houve momentos de pagamentos parciais e atrasos, que levaram a Caixa a conceder benefícios como o standstill e a redução temporária de parcelas. No entanto, juros e encargos continuaram a incidir, aumentando o saldo devedor. Em 22 de agosto de 2019, último dado disponível nos autos, a dívida judicializada atingiu R$ 536 milhões, após acréscimos por atrasos, “descasamento” e multas contratuais.