O Brasil vive um jejum de 24 anos sem a conquista da Copa do Mundo, período que remete à maior seca da história da seleção entre 1930 e 1958. No entanto, a história mostra que mesmo diante de desconfianças, a Canarinho já superou adversidades para erguer o troféu. Em conversa com o Estadão durante o lançamento do livro “Bastidores de um vestiário”, do ex-zagueiro Edmílson Moraes, campeão em 2002, e com a participação de Paulo Sérgio, medalha em 1994, insights valiosos sobre como reverter o cenário atual foram revelados.
A força da desconfiança e a união do grupo
Edmílson, hoje empresário e coordenador do projeto Legends da CBF, evita comparações diretas entre gerações, mas enxerga na atual seleção comandada por Carlo Ancelotti um potencial de crescimento. “Ancelotti e sua comissão técnica não tiveram muito tempo para trabalhar e estão buscando estar mais integrados e conhecendo mais o ambiente do grupo, da seleção, do Brasil”, afirma.
O campeão de 2002 ressalta que o Brasil não chegar como favorito pode ser um ponto positivo. “Todas as vezes em que chegamos como favoritos no torneio isso não deu certo. Em 2002, tínhamos a derrota para a França em 1998 muito viva e conseguimos reverter a expectativa de que não ganharíamos ou não superaríamos aquele momento de catástrofe”, relembra.
Experiência como chave para o sucesso
A importância de jogadores experientes como Neymar, Casemiro e Danilo é destacada por Edmílson. Mesmo com a convocação de Neymar sem ter atuado sob o comando de Ancelotti, o ex-jogador acredita que a decisão foi bem pensada. “Acredito que Neymar esteja consciente de que é sua última Copa e que ele precisa ajudar o restante do grupo com a experiência que possui com a disputa de três mundiais”, pontua.
Paulo Sérgio, que esteve presente no evento de lançamento do livro de Edmílson, ecoa essa visão. Ele compara a situação atual com a de 1994, quando a equipe também enfrentou críticas. “O Brasil chegar ao mundial com muitas críticas, como foi em 1994. Mas mostramos, com muito trabalho, treinamento e dedicação, que podemos mudar e inverter as expectativas”, diz.
A lição de Ricardo Rocha, que mesmo lesionado em 1994, contribuiu no vestiário, é citada por Paulo Sérgio como exemplo de como a experiência e a união transcendem o campo. “Em 1994, nosso time sofreu com a lesão do Ricardo Rocha logo na estreia, contra a Rússia. E mesmo assim ele pôde nos ajudar no vestiário, nas conversas do dia a dia, no posicionamento dos atletas”, lembra.
A resiliência como aprendizado
Edmílson compartilha sua própria trajetória como exemplo de resiliência. A adaptação a times lutando contra o rebaixamento, como no Zaragoza, após experiências em clubes de ponta, ensinou o valor de não desistir. “Se tem uma coisa que aprendi, seja como atleta ou como empresário, é não desistir nunca das coisas que você acha que vão acontecer”, declara.
A mãe do jovem atacante Endrick, Cíntia Moreira Ramos, também vê nos altos e baixos recentes do filho um fator de fortalecimento. “Para mim, não foi uma surpresa a convocação dele e chegamos a isso juntos, com muitos momentos de choro, alegrias, conversas”, conta, confiante na capacidade do filho de contribuir para a seleção.
Um olhar para o futuro e a busca pelo Hexa
Apesar do cenário desafiador, a esperança e a confiança pairam no ambiente. A união, a experiência dos veteranos e a capacidade de superar as adversidades, inspiradas em campanhas passadas, são os pilares para que o Brasil possa, enfim, reconquistar o mundo e acabar com o jejum de 24 anos.