Relatórios Apontam Conexões Perigosas
A Sportradar, empresa suíça que se apresenta como líder em integridade esportiva e parceira de importantes entidades como Fifa, Conmebol e CBF, está no centro de um escândalo. Relatórios divulgados por grupos ativistas de investigação financeira, aos quais o Estadão teve acesso, apontam que a companhia teria ligações profundas com mais de 270 empresas não licenciadas que operam apostas esportivas, jogos virtuais e cassinos de criptomoedas ilegalmente ao redor do mundo e no Brasil. Algumas dessas operações clandestinas, segundo as investigações, teriam conexões com grupos criminosos internacionais.
Falhas de Compliance e Lucro Acima de Tudo?
Os documentos, elaborados pela Muddy Waters Research e pela Callisto Research, sugerem que a Sportradar fornece dados essenciais para operadoras ilegais, inclusive na Ásia e Rússia, com alegações de envolvimento com tráfico humano e crime organizado. O relatório da Muddy Waters acusa a empresa de ignorar protocolos de compliance para atingir metas financeiras, utilizando suas parcerias com ligas esportivas de elite como fachada. A Callisto Research, por sua vez, indica que mais de um terço dos clientes da Sportradar opera sem licenças válidas ou em jurisdições proibidas, compartilhando lucros com operadores ligados a crime organizado e lavagem de dinheiro. Um ex-funcionário teria revelado que operadoras não licenciadas seriam responsáveis por cerca de um terço da receita da Sportradar, que faturou 1,2 bilhão de euros em 2025.
CEO Nega Acusações e Fala em Ataque Infundado
Em resposta às acusações, o CEO global da Sportradar, Carsten Koerl, negou veementemente as informações em uma carta aberta. Ele classificou os relatórios como um “ataque infundado” com o objetivo de criar pânico, derrubar o valor das ações da empresa na Nasdaq e lucrar com a crise. Koerl afirmou que as alegações são falsas, mal pesquisadas ou tiradas de contexto, e que a empresa trabalha apenas com operadores licenciados. Ele também refutou as alegações de conexões com oligarcas russos, atribuindo-as a tentativas de gerar controvérsia.
Entidades Esportivas sob Pressão
As parcerias da Sportradar com órgãos esportivos ganham destaque diante das acusações. A Fifa mantém contrato com a empresa desde 2017, renovado até 2031 para monitoramento de apostas com inteligência artificial. A Conmebol nomeou a Sportradar como vencedora de direitos de áudio, vídeo e dados de apostas em 2023, com serviços prestados desde 2019. A CBF também tem parceria desde 2018, com um acordo ampliado no ano passado para monitorar mais de 10 mil partidas por temporada. As entidades Fifa, Conmebol e CBF foram procuradas, mas não comentaram o caso, com a CBF informando que aguarda mais informações.
Autores dos Relatórios e Impacto no Mercado
Os autores dos relatórios se apresentam como grupos de pesquisa financeira especializados em vendas a descoberto (short-selling), admitindo que possuem interesses na queda do valor das ações da Sportradar, que são negociadas na Nasdaq. Após a divulgação dos documentos, as ações da empresa chegaram a cair mais de 30%, evidenciando o impacto das denúncias no mercado financeiro.