Em um momento que promete ser o mais importante de sua jovem história como nação independente, o Kosovo se prepara para uma partida crucial que pode levá-lo à Copa do Mundo de 2026. Este duelo transcende as quatro linhas do campo, representando um passo gigantesco em sua busca por reconhecimento internacional, um sonho que começou de forma simbólica em um gramado enlameado há uma década.
As Primeiras Passadas Rumo ao Reconhecimento
A memória do jogo de 5 de março de 2014 ressurge com força entre os torcedores. Naquela ocasião, sem hino, bandeira ou gols, o passo simbólico da seleção kosovar rumo ao reconhecimento internacional terminou em um empate sem gols contra o Haiti. O palco foi o estádio Adem Jashari, em Mitrovica, no norte do país, marcando a primeira vez que o Kosovo atuou em seu próprio território.
Em uma região marcada por guerras trágicas, especialmente na década de 1990, o Kosovo declarou independência da Sérvia em 2008. Até hoje, dezenas de países, incluindo Brasil, Espanha, Rússia e a própria Sérvia, não o reconhecem como nação. O amistoso de 2014 foi autorizado pela FIFA com restrições: proibição de hinos nacionais e do uso de bandeiras ou outros símbolos oficiais do Kosovo, devido às tensões políticas. Ainda assim, cerca de 17 mil torcedores lotaram o estádio para um momento considerado histórico. O elenco kosovar reunia jogadores com carreiras em clubes europeus, refletindo a diáspora do território. O Haiti, membro pleno da FIFA, atuou como adversário em um jogo que ajudou a legitimar a presença do Kosovo no panorama internacional, apesar dos protestos sérvios à FIFA.
A Ascensão de Uma Nação no Futebol
Após o amistoso e o reconhecimento formal pela FIFA e UEFA em 2016, o Kosovo passou a disputar competições oficiais. Em 2021, a seleção terminou em último lugar em seu grupo de qualificação para o Mundial, com apenas uma vitória. Antes do sorteio para 2026, ocupava a 99ª posição no ranking da FIFA, atrás até de Luxemburgo.
A jornada da equipe tem sido de superação. O Kosovo esteve perto de uma vaga na Euro-2020, mas foi derrotado no play-off pela Macedônia do Norte em meio às restrições da pandemia, adiando o sonho de uma grande competição.
A Campanha Meteórica para o Mundial 2026
Considerado um azarão em seu grupo de qualificação para 2026, ao lado de Suécia, Suíça e Eslovênia, a seleção kosovar começou a campanha com uma derrota por 4 a 0 em Basileia. No entanto, duas vitórias surpreendentes sobre a Suécia e outra contra a Eslovênia garantiram a classificação para o play-off. Disputar um Campeonato do Mundo seria um marco para um país que só ingressou na FIFA e na UEFA em 2016, configurando uma das campanhas mais meteóricas da história do futebol moderno, comparável à ascensão da Croácia na década de 1990.
O atacante Elbasan Rashani, nascido na Suécia e criado na Noruega por pais kosovares, faz parte dessa história. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, ele recordou o início da seleção, quando o então técnico Albert Bunjaki percorria a Europa para convencer jogadores da diáspora a representar o Kosovo. “Sempre acreditamos”, disse Rashani, expressando a fé inabalável do grupo.
O Sonho ao Alcance e o Legado de Vokrri
Na semifinal do play-off europeu, o Kosovo demonstrou sua força ao vencer a Eslováquia (outro país que não o reconhece) por 4 a 3. A vitória teve contribuições de nomes como Vojvoda (lateral do Como, da Serie A), Muslija (do Düsseldorf) e o atacante mais midiático da equipe, Muriqi, do Mallorca, da Espanha.
Agora, sob o comando do alemão Franco Foda, a equipe contará com o apoio de uma torcida apaixonada no estádio Fadil Vokrri, na capital Pristina. Com uma população de 1,2 milhão de pessoas, o país veria com naturalidade mais de 100 mil kosovares querendo lotar as arquibancadas para o duelo com os turcos, uma nação considerada amiga desde os tempos do Império Otomano. No entanto, a capacidade do Fadil Vokrri é de apenas 17 mil lugares.
O próprio Vokrri, falecido em junho de 2018 aos 57 anos, será lembrado caso a qualificação se concretize. Ele foi presidente da Federação de Futebol do Kosovo durante todo o processo de reconhecimento do futebol nacional e emprestou seu nome ao estádio que serve de casa à seleção. Vokrri se destacou como atacante em equipes como o Partizan, da Sérvia, e o Fenerbahçe, da Turquia, sendo o único jogador do Kosovo a ter representado a Iugoslávia. Apesar de não esconderem o favoritismo da Turquia, os jogadores mantêm os pés no chão e estão entusiasmados com a possibilidade de dar uma grande alegria aos torcedores do Kosovo, em sua maioria de origem albanesa, que inclusive defendem a unificação entre os dois lados.