Da dependência química à redenção pela arte
Walter Casagrande, conhecido por sua franqueza ao abordar sua luta contra a dependência química e sua carreira no futebol, está pronto para um novo palco. O ex-jogador e comentarista esportivo estreia nesta sexta-feira (3) e sábado (4) a peça teatral ‘Na Marca do Pênalti’, no Festival de Teatro de Curitiba. Em um monólogo de pouco mais de uma hora, Casagrande promete uma conversa íntima com a plateia sobre sua vida, marcada por vitórias nos gramados e batalhas pessoais.
Casagrande optou por estar sozinho em cena, dispensando roteiros fixos e contracenações. “Se tivesse de contracenar com outra pessoa no palco, teria de dividir o meu raciocínio e não preciso. Não vou contar a história de um personagem, mas a minha própria história”, explica o ex-atleta. A apresentação será sustentada por imagens históricas projetadas, garantindo uma experiência imersiva e autêntica. A decisão de atuar sem um roteiro preestabelecido vem de sua experiência como comentarista, onde sempre preferiu apresentações ao vivo e improvisadas. Um teste realizado no Corinthians em dezembro passado, com a presença de ex-jogadores e sócios, confirmou o potencial da ideia, conforme o diretor e idealizador da peça, Fernando Philbert.
Democracia Corintiana e amizade com Sócrates
Durante o espetáculo, Casagrande revisitará momentos cruciais de sua carreira, incluindo sua participação na Democracia Corintiana (1982-1984). Ele relembrará o movimento liderado por jogadores politizados como Sócrates, Wladimir e Zenon, que permitiu opiniões abertas sobre regras e liberdade de expressão em pleno regime militar. Casagrande não hesitará em mencionar as perseguições e a vigilância sofridas pelo grupo, mas ressalta o orgulho de ter participado de comícios das Diretas Já e eventos culturais da época. A amizade com o icônico Sócrates também será um ponto alto, com Casagrande expressando sua admiração pelo amigo e colega de time.
A superação da dependência e a descoberta da cultura
Um dos temas centrais da peça será o período em que Casagrande esteve internado para tratar sua dependência de heroína e cocaína, em 2007. Ele compartilhará as dificuldades da reabilitação, que durou mais de um ano, e o processo de ressocialização. “Troquei os momentos do falso prazer da droga pelo prazer verdadeiro oferecido pela cultura”, afirma Casagrande, destacando como idas a cinemas e teatros se tornaram parte fundamental de sua recuperação. O ex-jogador se diz aberto a dialogar sobre sua experiência com a dependência química, dependendo da receptividade da plateia.
Interação com o público e opiniões sobre o futebol atual
Além de sua trajetória pessoal e profissional, Casagrande sinaliza que poderá abrir espaço para discussões sobre o futebol contemporâneo. Se o público demonstrar interesse, ele está disposto a dedicar cerca de 15 minutos para debater temas atuais, como a possível ida de Neymar para a Copa do Mundo, a qualidade de treinadores como Carlo Ancelotti ou o desempenho da seleção brasileira. Suas opiniões, muitas vezes polêmicas e que já geraram embates públicos com figuras como Romário, são apresentadas com a mesma transparência que o público espera de Casagrande no palco: “Minhas opiniões são públicas, não tenho nada a esconder.”





