Depois de mais de quatro décadas, precisamente 41 anos, 8 meses e 24 dias, o São Paulo Futebol Clube volta a ter um treinador negro em seu comando. Roger Machado assume a equipe principal, sucedendo um período em que apenas Carlos Gruezo, adjunto de Luis Zubeldía, atuou como interino na função. A nomeação de Machado não é apenas um fato esportivo; ela expõe um descompasso histórico e racial no futebol brasileiro, onde a presença de técnicos negros na elite é notavelmente baixa.
O Descompasso Racial no Futebol Brasileiro
A chegada de Roger Machado ao São Paulo lança luz sobre a sub-representação de treinadores negros no cenário nacional. Uma pesquisa recente da Escola de Educação Física e Desporto da Universidade de São Paulo (USP), concluída em 2024 por Donald Verônico Alves da Silva, reforça esse desequilíbrio. O estudo, que avaliou mais de mil profissionais da Série A do Campeonato Brasileiro por meio de heteroidentificação, mostrou que, apesar de 55,5% da população brasileira se declarar preta ou mestiça (dados IBGE 2022), em 2023, nenhum técnico negro comandava equipes da elite nacional, e apenas cerca de 17% dos adjuntos eram identificados como pretos ou mestiços. A própria seleção brasileira, por exemplo, nunca teve um treinador negro em uma Copa do Mundo.
Cilinho: O Legado de um Pioneiro
Antes de Roger, o último treinador negro a comandar o São Paulo foi Otacílio Pires de Camargo, o Cilinho (1939-2019), que chegou ao clube em 1984. Sua vinda foi marcada por desconfiança, com parte da imprensa e da torcida esperando um nome mais consagrado. Apelidado ironicamente de “Cilinho Michels”, em alusão ao técnico neerlandês Rinus Michels, ele transformou o ceticismo em reconhecimento. Cilinho apostou na base, promovendo jovens como Müller e Silas, e implementou um estilo ofensivo e técnico. Seu método didático, que incluía fazer os jogadores trocarem passes com bolas de tênis para aprimorar controle e agilidade, rendeu-lhe o apelido de “professor”. Sob seu comando, o São Paulo conquistou os Campeonatos Paulistas de 1985 e 1987, pavimentando o caminho para a fase gloriosa dos anos 1990, sob Telê Santana.
Raízes Negras na História Tricolor
A história do São Paulo conta com outros grandes nomes negros no comando técnico. O pioneiro foi Arthur Friedenreich, que dirigiu o clube em 1936. Mais conhecido como jogador – o primeiro grande ídolo do futebol brasileiro e do São Paulo antes da era dos Mundiais –, Friedenreich, filho de pai alemão e mãe negra brasileira, destacou-se numa época de forte elitismo racial no esporte. Outro gigante foi Leônidas da Silva (1913-2004), o “Diamante Negro”, que, após brilhar como jogador, treinou o clube entre 1951 e 1955. Nos anos 1960, Sylvio Pirillo comandou o São Paulo entre 1967 e 1968 e, antes disso, fez história ao ser o primeiro técnico a convocar Pelé para a seleção brasileira em 1957. Além destes, técnicos como Ariston de Oliveira, Caxambu, Bebeto de Oliveira e Zé Carlos Serrão tiveram passagens interinas pelo clube.
O Desafio de Roger Machado
Roger Machado assume o São Paulo em um cenário diferente, com o futebol moderno e a influência das redes sociais. Ele enfrenta rejeição de parte da torcida, que questiona seu histórico de poucos títulos e suas posições políticas assumidamente de esquerda. No entanto, o tempo e os resultados em campo serão os verdadeiros juízes de sua passagem pelo clube. A história do São Paulo, rica em talentos negros, agora adiciona um novo capítulo, com a esperança de que Roger Machado possa não apenas trazer sucesso esportivo, mas também inspirar uma maior inclusão e reconhecimento da diversidade no esporte mais popular do Brasil.





