No universo do futebol, assim como no samba, um ‘enredo’ transcende a mera descrição de fatos. É a história contada, a narrativa que envolve e emociona, composta por personagens, obstáculos e a glória almejada. Em 1994, a Gaviões da Fiel imortalizou a história do tabaco no Anhembi com ‘A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente’, um samba que ecoa até hoje nas arquibancadas alvinegras. Quatro anos depois, a Unidos da Tijuca homenageou o Vasco em seu centenário. Hoje, na final da Copa do Brasil, Vasco e Corinthians não disputam apenas um troféu; eles colocam em campo dois dos mais ricos e dramáticos enredos que o futebol brasileiro poderia oferecer. A partir das 18h30, no palco sagrado do Maracanã, esses gigantes defenderão qual de suas epopeias merece ser coroada, provando que, para além dos troféus, a epopeia importa, como as viradas improváveis do Atlético-MG em 2013 ou a insossa final do Grêmio em 2017.
O Enredo de Redenção do Vasco: Do Sofrimento à Esperança
Para o Vasco da Gama, a final representa a chance de uma redenção há muito aguardada, um enredo digno de nota 10. Um gigante adormecido, cuja história se entrelaça com a do próprio futebol brasileiro e seu lendário Expresso da Vitória nos anos 1950, o clube carioca não celebra uma conquista nacional há 14 anos. Nesse período, a torcida cruzmaltina amargou três rebaixamentos e viu a festa de seus maiores rivais, especialmente o Flamengo, aprofundando uma ferida que fez o clube virar piada nacional. O respeito, antes inabalável, foi corroído, com provocações vindas até mesmo do ‘Pior Time do Mundo’, o Íbis, que se dava ao direito de caçoar do Gigante da Colina.
A forra pode vir justamente contra um de seus maiores algozes históricos: o Corinthians. O Vasco é freguês do Timão desde 1930, quando o raçudo conjunto paulista liderado por Del Debbio trouxe de São Januário o título de ‘campeão dos campeões’, eternizado no hino corintiano. Desde então, o Corinthians tem sido uma pedra no sapato vascaíno, tirando-lhe o Mundial de 2000, as Copas do Brasil de 1995 e 2009, o Brasileiro de 2011 e, para a tristeza de Diego Souza (sempre lembrado neste confronto), a Libertadores de 2012. Dar a volta olímpica no Maracanã lotado, superando esse adversário, simbolizaria a redenção para uma torcida apaixonada e sofrida, que até saboreou raros momentos de alegria no Brasileirão (como um histórico 6 a 0 contra o Santos), mesmo terminando a competição em um nada honroso 14º lugar. A jornada vascaína até a final incluiu a superação de rivais como Botafogo, nas quartas, e Fluminense, nas semifinais, clubes que vivem fases financeiras e esportivas mais tranquilas, impulsionados pelo dinheiro da SAF botafoguense e a boa fase tricolor. Contudo, nem o dinheiro nem a boa fase foram páreos para a garra de Philippe Coutinho, Rayan e o comando do ora amado, ora odiado Fernando Diniz.
Corinthians: Superação, Economia e a Magia de 2000
Mas se o vascaíno quer falar em agruras, o que dirá o corintiano, que fez do sofrimento parte indelével de sua identidade, mesmo nos períodos de abastança? Outra palavra inerente ao dicionário alvinegro é a superação, que levou à idolatria jogadores como Basílio, Ezequiel, Jorge Henrique e Romero. O Timão, que fez do ‘nunca desistir’ um lema, atropelou a matemática para chegar até aqui. No ano passado, as chances de classificação para a Copa do Brasil via Brasileirão eram mínimas (menos de 0,004%), mas uma arrancada com nove vitórias consecutivas, impulsionada pelo brilho de Memphis Depay e Yuri Alberto, contrariou todas as estatísticas, desprezadas pelos estatísticos.
Além de superar as expectativas, o Corinthians sonha em fechar o ano com dois títulos, ambos conquistados superando o abastado maior rival, o Flamengo, que gastou mais de R$ 700 milhões em contratações. Em contraste, o Timão, por uma surreal incompetência de seus dirigentes (atuais e antecessores), só pôde contratar dois jogadores, o mediano Angileri e o habilidoso Vitinho, ambos reservas. Na falta de dinheiro para investir, o jeito foi apostar no ‘santo de casa’, como fez a Gaviões da Fiel em 2019 ao reeditar o samba ‘A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente’. Memphis brilhou contra Palmeiras e Cruzeiro, a despeito de um aparente toque de mão à Lucas 2023, interpretado por alguns alvinegros como o sinal definitivo de que Dorival Júnior conquistará a Copa do Brasil pela quarta vez. Já Hugo, em uma espécie de passagem de bastão, superou Cássio na emblemática decisão por pênaltis contra a Raposa, consolidando seu espaço.
O Reencontro Histórico e as Coincidências Místicas com 2000
Porém, a parte do enredo corintiano que mais acende a chama da torcida e faz brilhar os olhos é a série de incríveis coincidências com o Mundial de Clubes de 2000. Vinte e cinco anos depois de pintar a Terra de preto e branco pela primeira vez, o Timão volta ao Maracanã para medir forças com o mesmo rival: o Vasco. O uniforme, uma homenagem da fornecedora de material esportivo, será igualzinho ao daquela histórica final, a menos que um supersticioso assessor do presidente Pedrinho leia esta coluna ou, mais provável, um post de um perfil com as iniciais sccp ou um nome como Gustavo Henrique Bolado.
Aqueles que usam até ‘cueca da sorte’ em jogo decisivo lembram que o ídolo Neto (o Craque Neto), a exemplo do que fez ao lado de Luciano do Valle naquela noite de 14 de janeiro de 2000, comentará a partida. Como diz o samba da Gaviões de 1994, ‘é a força da magia, que me arrepia e se espalha pelo ar’, um sentimento que permeia o imaginário corintiano, transformando a final em algo mais do que um simples jogo, mas uma repetição de um destino glorioso.
Muito além da taça, que será erguida por apenas um, a final da Copa do Brasil entre Vasco e Corinthians é um espetáculo de narrativas. De um lado, a busca por uma redenção que pode apagar anos de dor e zombaria, um grito de volta à glória para um gigante ferido. Do outro, a consagração de uma identidade de superação, temperada por coincidências que parecem tecer um destino mágico. Qual enredo será o mais forte? O Maracanã, palco de tantas glórias e dramas, está pronto para testemunhar mais um capítulo inesquecível e dramático na rica história do futebol brasileiro, onde a epopeia, mais do que o troféu, definirá a grandeza do campeão.





