Discrepância entre discurso e realidade contratual
Desde o anúncio da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) da Portuguesa, em novembro de 2024, o clube tem sido frequentemente associado a um projeto bilionário, com cifras de R$ 1,2 bilhão sendo amplamente divulgadas. No entanto, uma análise detalhada do contrato firmado entre a Portuguesa, Tauá, Revee e XP, ao qual a coluna teve acesso, revela uma realidade financeira muito mais modesta. O valor a ser efetivamente aportado pelos investidores se limita a R$ 30 milhões, gerando uma discrepância considerável entre o discurso público e as garantias contratuais.
Detalhes do contrato e a diluição dos valores
O contrato estipula um aporte inicial de R$ 30 milhões, divididos em R$ 12 milhões à vista e R$ 18 milhões mediante a transferência das ações da SAF. Além disso, há a possibilidade de um financiamento de R$ 120 milhões, a ser obtido junto à XP ou outras instituições financeiras, destinado ao chamado “Projeto de Futebol”. A Revee se comprometeu a investir “até R$ 500 milhões” na exploração comercial do Canindé, com a reforma do clube social incluída. Já o saneamento das dívidas da associação civil está limitado a R$ 550 milhões, com responsabilidade da associação para valores que excedam esse montante.
A estratégia de inflar números
A prática de misturar dívidas, investimentos e despesas correntes para compor um valor total atrativo é uma estratégia observada em outras SAFs. A soma de projeções salariais para os próximos cinco anos, por exemplo, contribui para inflar o valor divulgado. Essa tática visa, em um primeiro momento, convencer conselheiros e associados a aprovar a venda do futebol, e em um segundo momento, criar uma percepção pública de solidez financeira. Contudo, o “dinheiro novo” efetivamente injetado pelos investidores é de R$ 30 milhões, enquanto os R$ 120 milhões de financiamento representam uma dívida a ser quitada com as próprias receitas da SAF.
O futuro da Portuguesa e a exploração do Canindé
A grande jogada para os investidores reside na exploração comercial do Estádio do Canindé. Com um desembolso inicial baixo para a recuperação futebolística do clube, os investidores ganharam o direito de reformar e gerir o estádio por 50 anos. Embora a Portuguesa seja a proprietária do Canindé, a associação não receberá diretamente pelos lucros da exploração, que serão repassados pela gestora Revee à SAF. A meta esportiva de chegar à Série C em 2026 não foi cumprida, levantando novas questões sobre a gestão e os objetivos futuros do clube-empresa.
Posicionamento do clube
Em nota enviada à imprensa, a Portuguesa defende que o investimento de R$ 1,2 bilhão está de fato previsto no contrato. O clube detalha que R$ 560 milhões são referentes à dívida, R$ 500 milhões ao projeto do Novo Canindé e R$ 150 milhões ao futebol em até cinco anos, com possibilidade de ampliação. A nota também aponta que em 2025 foram gastos R$ 45 milhões, superando os R$ 30 milhões previstos inicialmente. A missão, segundo o clube, é reconstruir um time icônico do futebol brasileiro.