A onda de demissões de técnicos, uma marca registrada do futebol brasileiro, parece ter cruzado o Atlântico, afetando agora até mesmo grandes clubes europeus. O que antes era visto como uma solução rápida para crises, mas que comprometia a estabilidade e a qualidade do jogo em solo nacional, agora se manifesta em cenários internacionais, levantando questionamentos sobre a sustentabilidade de projetos esportivos.
O cenário recente em competições de alto nível ilustra essa tendência preocupante. No Mundial de Clubes de 2025, por exemplo, a semifinal viu o surpreendente Chelsea eliminar o Fluminense. Poucos meses depois, em setembro, o técnico do clube carioca, Renato Gaúcho, pediu demissão após resultados insatisfatórios. A história se repetiu no início de 2026, com o Chelsea anunciando a saída de Enzo Maresca, após um período de apenas duas vitórias em dezembro, atribuído à queda de produção e ao desgaste com a diretoria.
Desdobramentos na Europa e a Reflexão Necessária
Do outro lado, o Real Madrid, sob o comando de Xabi Alonso, apesar de ter chegado longe na mesma competição, sofreu uma derrota expressiva para o PSG e, posteriormente, perdeu um clássico e a Supercopa da Espanha. A instabilidade no desempenho e conflitos internos levaram à sua demissão. Em um lapso de menos de seis meses, três dos quatro semifinalistas do Mundial trocaram seus comandantes, evidenciando uma impaciência que antes parecia restrita ao Brasil.
O Preço da Instabilidade: Queda de Qualidade e Falta de Projetos
No Brasil, a rotatividade de técnicos se tornou tão comum que perdeu-se a conta e o pudor. Essa prática tem um impacto direto na queda de qualidade do jogo. Treinadores hesitam em inovar ou arriscar novas estratégias por temerem a falta de tempo e respaldo para implementar suas ideias. Em calendários apertados, sem pré-temporada adequada, planejar a temporada se torna um desafio constante, priorizando a disputa de jogos em detrimento do desenvolvimento tático e técnico.
A Exportação de um Modelo Falho
A realidade brasileira já demonstra os efeitos negativos dessa cultura: multas pesadas por demissões e uma ‘septicemia’ que corrói cargos e deteriora o espetáculo. A questão central é que essa impaciência, pouco produtiva e inteligente, está sendo exportada para onde não deveria, resultando na demissão de treinadores com resultados, mesmo que não espetaculares. A comparação com a longevidade de técnicos como Sir Alex Ferguson no Manchester United, que teve tempo para construir um legado vencedor, ressalta a diferença gritante. Em um cenário de trocas constantes, a oportunidade de desenvolver e consolidar um trabalho consistente se torna cada vez mais rara, limitando o potencial de evolução do futebol.