Para os olhares atentos à Liga Portugal e aos jogos do Sporting nas últimas temporadas, a identidade do ’10’ de Moçambique é inconfundível: Geny Catamo. O bicampeão nacional português, cuja trajetória nem sempre apontou para o sucesso atual, emergiu como a figura central da sua seleção, um feito impulsionado pela visão e aposta de Ruben Amorim. Hoje, a seleção moçambicana, carinhosamente descrita como ‘Geny e mais 10’, reflete a influência transformadora do jogador na equipa, especialmente evidente na Copa Africana de Nações (CAN).
A Trajetória Acidentada: Do Amora às Dificuldades em Portugal
Nascido em Maputo, capital moçambicana, Geny Cipriano Catamo iniciou sua jornada no futebol europeu através do Amora, um clube português com forte ligação a Moçambique. Aos 18 anos, estreou-se na equipa principal, chamando a atenção do Sporting, que o levou para as suas camadas jovens por empréstimo. Ruben Amorim, então treinador, já demonstrava interesse no jovem esquerdino, que realizou a pré-época de 2020/21 com a equipa principal antes de assinar seu primeiro contrato profissional.
No entanto, o caminho de Catamo em Portugal foi marcado por desafios. Após um período na equipa B do Sporting, foi utilizado como ‘moeda de troca’ para a aquisição de Marcus Edwards, sendo emprestado ao Vitória SC. A expectativa de jogar regularmente na Liga Portugal não se concretizou plenamente; Geny foi mais uma arma secreta do que um titular indiscutível, somando apenas duas assistências no último jogo da época. A passagem por Guimarães não convenceu, e o regresso ao Sporting não lhe garantiu espaço. A solução foi um novo empréstimo, desta vez ao Marítimo. A época na Madeira culminou com a inédita descida de divisão do clube após 38 anos, e Geny Catamo, apesar das expectativas, realizou apenas 11 jogos, seis como titular, deixando o ‘Caldeirão dos Barreiros’ com um sentimento de desilusão.
A Virada Inesperada: A Aposta de Amorim no Sporting
Após dois empréstimos sem o sucesso esperado, poucos acreditariam na afirmação de Geny Catamo no Sporting. Contudo, Ruben Amorim, com sua perspicácia, viu algo que outros treinadores não perceberam. No início da época 2023/24, aproveitando problemas físicos de colegas, Catamo foi lançado como titular na ala direita, uma posição adaptada que Amorim já havia testado com outros extremos. Essa aposta inesperada rendeu frutos: de quase um figurante, Geny abraçou o novo papel, tornando-se uma espécie de ’12.º jogador’ para Amorim, atuando tanto na ala direita quanto na esquerda ou como extremo, muitas vezes vindo do banco.
De Quase Dispensável a Herói em Alvalade
A transformação de Geny Catamo em Alvalade foi meteórica. No início da temporada, visto por muitos adeptos como dispensável, ele terminou a época como um verdadeiro ícone. Os dois golos decisivos na vitória por 2-1 contra o Benfica foram um divisor de águas, revelando-se cruciais para a conquista do título de campeão nacional. O moçambicano não só se tornou protagonista de uma música do rapper Plutónio (‘Acordar’), como também foi eleito o ‘grande inimigo’ do eterno rival dos leões, especialmente após apontar o golo da vitória (1-0) na época anterior, que marcou a estreia do treinador Rui Borges e um ponto de viragem para o bicampeonato, um feito que o Sporting não alcançava há 71 anos.
O Líder de Moçambique na CAN: Um Patamar Diferenciado
De um jogador quase dispensado a uma figura proeminente do Sporting, Geny Catamo regressa à CAN com um estatuto completamente diferente da sua estreia em 2023. Aos 24 anos, a timidez nas palavras contrasta com a ousadia e a confiança demonstradas em campo. Seja na direita ou na esquerda, como ala ou extremo, o moçambicano é um jogador versátil, dotado de recursos no drible e no remate, capaz de assumir riscos no ataque e de recuar para auxiliar na defesa.
Na CAN-2025, Catamo é a maior figura da seleção moçambicana. Pepo, em entrevista ao Flashscore, confirmou: “Para mim, o Geny (Catamo) está num patamar completamente diferente. Nota-se mesmo. Por exemplo, quando jogámos contra a Argélia, ele esteve ao nível dos melhores deles. Em tudo o que são pormenores – arranque, força, velocidade de execução, capacidade de decisão – percebe-se logo que é um jogador muito diferenciado”. Embora sua exibição não tenha sido suficiente para vencer a Costa do Marfim na primeira jornada, esteve perto do golo do empate e já foi o bastante para captar a atenção dos que ainda não o conheciam. Geny Catamo é a grande esperança da equipa de Chiquinho Conde, pronto para liderar Moçambique rumo a novos voos na competição.