A vitória da Zâmbia na Copa Africana de Nações (CAN) de 2012, ao derrotar a poderosa Costa do Marfim de Didier Drogba e Yaya Touré nas grandes penalidades após um empate sem gols, é amplamente celebrada como uma das maiores histórias de superação do futebol. No entanto, para compreender a verdadeira dimensão desse triunfo, é preciso mergulhar em uma das maiores tragédias do esporte africano, ocorrida 19 anos antes, e que conecta profundamente a glória de 2012 ao luto de 1993, na mesma cidade de Libreville.
A Tragédia que Marcou uma Nação e a Reconstrução Imediata
Em 27 de abril de 1993, a seleção nacional da Zâmbia, conhecida como “Chipolopolo”, viajava para o Senegal para um jogo de qualificação para a Copa do Mundo de 1994. O avião da força aérea, que transportava praticamente todo o elenco, caiu no mar perto de Libreville, no Gabão, após uma escala para reabastecimento. Relatos indicaram problemas no motor já na escala anterior, em Brazzaville, mas a viagem prosseguiu. Ao decolar de Libreville, o motor esquerdo pegou fogo. Tragicamente, o piloto teria desligado por engano o motor direito, levando à queda fatal e matando as 25 pessoas a bordo. Entre as vítimas, estavam 18 jogadores de uma geração dourada, muitos dos quais haviam goleado a Itália por 4 a 0 nos Jogos Olímpicos de Seul em 1988. O capitão Kalusha Bwalya, que atuava na Europa, não estava no voo, escapando por pouco do desastre que mergulhou a Zâmbia em luto profundo. A nação, contudo, mostrou resiliência. A equipe foi rapidamente reconstruída, falhando a qualificação para o Mundial de 1994 por apenas um ponto e alcançando a final da CAN de 1994, onde perdeu para a Nigéria por 2 a 1.
A Jornada Inesperada de 2012: União e Liderança
Dezoito anos após a tragédia, em 2012, os “Chipolopolo” retornaram ao Gabão para a fase final da CAN, sem grandes expectativas e vistos como azarões sob o comando do técnico francês Hervé Renard. Contudo, a confiança já havia sido construída a partir da CAN de 2010, onde a Zâmbia chegou às quartas de final, sendo eliminada nos pênaltis pela Nigéria. O goleiro Kennedy Mweene, um dos heróis da final de 2012, revelou ao Flashscore a força do grupo: “Quando chegámos à CAN-2012, a confiança nasceu depois da CAN-2010 em Angola”. Ele explicou que cerca de 90% do plantel era o mesmo, e os jogadores se reuniram em Joanesburgo, na África do Sul, para um estágio. “Reunimo-nos entre jogadores e dissemos: ‘Não podemos sair nos quartos em 2010 e ir ao Gabão para cair logo na fase de grupos'”, contou Mweene. Essa autoconsciência levou a um pacto de responsabilidade e autodisciplina, com os próprios atletas corrigindo atrasos e falhas. Renard, em sua segunda passagem pela Zâmbia, era um líder que, apesar de exigente, tratava os jogadores como adultos, concedendo liberdade quando merecida e exigindo 120% nos treinos. “Para muitos, era como um pai ou um irmão mais velho”, descreveu Mweene, destacando a profunda confiança mútua.
Superando Obstáculos Rumo à Glória: Estratégia e Espírito de Luta
A campanha de 2012 começou com uma vitória surpreendente por 2 a 1 sobre o Senegal, graças aos gols de Emmanuel Mayuka e Rainford Kalaba. Renard soube gerir a pressão: “Quem conhece o Kennedy? Quem conhece o Chris (Katongo)? Ninguém. Então por que jogar sob pressão?”, recordou Mweene as palavras do técnico, que garantiu que uma derrota passaria despercebida, mas uma vitória faria história. Esse triunfo inicial infundiu a crença de que tudo era possível. A Zâmbia demonstrou seu espírito combativo ao recuperar por duas vezes para empatar 2 a 2 contra a Líbia, em um campo alagado. Mweene relembrou a dura, mas eficaz, repreensão de Renard no intervalo, que sentou e deixou os jogadores conversarem, fazendo-os perceber a mensagem. A melhor exibição na fase de grupos veio na vitória por 1 a 0 sobre os coanfitriões da Guiné Equatorial, diante de 44 mil torcedores fervorosos. A confiança na defesa era tamanha que os jogadores faziam apostas internas com os atacantes: “Marquem só um golo, eles não marcam contra nós”, brincava Mweene. Nas quartas de final, a Zâmbia superou o Sudão por 3 a 0, mantendo a seriedade. O jogo mais difícil, contudo, foi a semifinal contra Gana. Mweene descreveu-o como “o mais duro de todo o torneio, até mais do que a final”. Em uma atuação memorável, Mayuka marcou o gol da vitória por 1 a 0, e Mweene defendeu um pênalti de Asamoah Gyan. Renard enfatizou a força da equipe sobre o talento individual de Gana, e essa filosofia levou a Zâmbia à final.
O Clímax em Libreville: Uma Vitória com Propósito e Redenção
A grande final contra a temida Costa do Marfim, repleta de estrelas como Drogba, os irmãos Touré e Gervinho, terminou em um empate sem gols, levando a decisão para as grandes penalidades. A Zâmbia, com grande confiança e após ter treinado exaustivamente os pênaltis, venceu por 8 a 7, com Kennedy Mweene demonstrando coragem ao marcar um dos gols. Kolo Touré e Gervinho falharam suas tentativas, e a Zâmbia sagrou-se campeã pela primeira vez, contra todas as expectativas. A coincidência de a final ser disputada em Libreville, a poucos metros do local do acidente de 1993, não passou despercebida. Os jogadores zambianos fizeram uma emocionante homenagem na praia, prestando tributo aos seus compatriotas. Mweene admitiu que a equipe de 1993 era “muito melhor” e “tinha tudo”, mas que o destino escolheu o time de 2012 para “fechar finalmente o capítulo desses heróis”. “Coube-nos a nós fechar finalmente o capítulo desses heróis, concretizar o que o acidente lhes negou. Pudemos sorrir e dizer: ‘missão cumprida'”, refletiu o goleiro. A vitória foi mais do que um título; foi um ato de redenção, um tributo eterno e a concretização de um sonho adiado por quase duas décadas. A Zâmbia se prepara agora para a CAN 2025, onde enfrentará Marrocos, Mali e Comores no Grupo A.





